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Artigo: Manual de sobrevivência do leitor da mídia tradicional

Por: Fabio Pereira Garcia dos Santos – Procurador do Estado do Amazonas

Durante muito tempo, ler jornal era sinônimo de estar informado.

Com efeito, a equação parecia simples: o fato acontecia, o jornalista apurava, o veículo publicava e o leitor tomava conhecimento do mundo.

Entre o acontecimento e o leitor existe uma cadeia de escolhas. Alguém decide o que merece virar notícia, qual aspecto receberá destaque, quem será ouvido, que fotografia será usada, qual número aparecerá no título, que comparação será feita e o que, embora verdadeiro e relevante, ficará de fora.

Nada disso exige mentira.

E esse talvez seja o ponto mais importante.

Uma reportagem pode conter apenas informações verdadeiras e, ainda assim, produzir no leitor uma compreensão profundamente parcial da realidade.

É por isso que o consumidor contemporâneo de notícias precisa aprender algo que raramente lhe foi ensinado: ler não apenas o texto, mas também conhecer todos os aspectos que culminaram com sua produção.

A primeira providência é quase banal: saber o que se está lendo.

Aqui já começa o que realmente importa, pois nem tudo que aparece em um jornal é notícia.

É importante conhecer o que, em tese, pode ser veiculado na mídia tradicional. Nesse sentido, é imprescindível saber que um editorial é a opinião institucional do veículo. Um artigo de opinião é a posição de quem o assina. Uma coluna mistura, em graus variados, informação, interpretação e opinião pessoal. Uma análise pretende explicar o significado de um acontecimento, não apenas narrá-lo. Uma entrevista apresenta sobretudo a visão do entrevistado. Uma reportagem, em tese, busca apurar os fatos e ouvir fontes. Há, ainda, o que se denomina de conteúdo patrocinado, isto é, uma publicação paga por uma empresa, governo, instituição ou organização para divulgar uma mensagem, produto, serviço, causa ou interesse.

Todos esses produtos são diferentes.

O primeiro erro do leitor é consumi-los como se fossem todos a mesma coisa. E muita gente faz isso, o que frequentemente gera uma enorme distorção no entendimento do leitor mais desavisado.

Mas há mais: o problema mais interessante surge antes mesmo da primeira palavra escrita.

Todos os dias acontecem milhares de fatos potencialmente noticiáveis. Apenas uma pequena parte deles chega às capas, aos portais e aos telejornais.

Essa seleção já é uma forma de edição da realidade.

Isso não significa necessariamente manipulação. Toda redação precisa escolher. O espaço, o tempo e a atenção são limitados.

Mas escolher significa exercer poder.

O leitor costuma analisar as notícias que foram publicadas. Raramente pensa nas que não foram.

Às vezes, portanto, a pergunta mais reveladora não é “Por que escreveram isso?”, mas, sim, “Por que decidiram escrever sobre isso?”.

A pauta é o primeiro enquadramento. Depois vêm todos os outros.

Considere uma manchete hipotética: “Casos aumentam 50% em apenas um ano”.

É verdadeira? Pode ser. Mas os casos passaram de 100 mil para 150 mil ou de dois para três? O percentual é exatamente o mesmo.

Outro exemplo: “País registra a maior arrecadação da história”.

Também pode ser rigorosamente verdadeiro. Mas houve inflação? Crescimento econômico? Aumento da carga tributária? Mudança metodológica? Crescimento da população? O valor foi corrigido em termos reais?

Sem contexto, um número correto pode produzir uma conclusão errada.

Não é preciso falsificar uma estatística para direcionar uma narrativa. Muitas vezes basta escolher o denominador, o intervalo histórico ou a comparação mais conveniente.

Por isso, percentuais deveriam provocar no leitor uma reação quase automática: “Percentual de quê?” E recordes deveriam produzir outra: “Em termos nominais ou reais?”

Há também escolhas muito menores, quase invisíveis.

Os verbos, por exemplo. Um governo pode “investir” R$ 10 bilhões ou “gastar” R$ 10 bilhões. Manifestantes podem “ocupar” um prédio ou “invadi-lo”. Uma empresa pode “reestruturar” seu quadro ou “demitir milhares de empregados”. Uma reforma pode “flexibilizar regras” ou “retirar proteções”.

O acontecimento pode ser essencialmente o mesmo. A sensação produzida pela frase, não.

Adjetivos denunciam opinião com facilidade. Verbos costumam ser mais discretos. E talvez justamente por isso sejam mais eficientes.

Há, entretanto, uma expressão capaz de conferir respeitabilidade instantânea a praticamente qualquer narrativa: “Segundo especialistas…”. Quais especialistas? A pergunta deveria ser imediata.

Uma reportagem parece adquirir neutralidade quando apresenta economistas, cientistas políticos, professores universitários, advogados, médicos, pesquisadores ou representantes de organizações para interpretar determinado assunto.

Mas o título profissional é apenas o começo da informação sobre aquela pessoa. Onde trabalha? Quem financia a instituição? Já trabalhou para algum governo relacionado ao tema? Presta serviços a empresas afetadas pela decisão? Integra associação empresarial, sindicato, ONG, fundação ou movimento político? Publicou trabalhos anteriores defendendo posições semelhantes? Tem relação com partidos, fundos de investimento ou grupos econômicos interessados?

Nenhum desses vínculos torna alguém automaticamente desonesto ou incompetente. Com efeito, um economista que trabalha para um banco pode estar correto. Um pesquisador ligado a uma ONG pode produzir excelente ciência. Um ex-integrante de governo pode oferecer uma análise tecnicamente impecável. Uma pessoa politicamente engajada continua capaz de dizer a verdade.

O problema é outro.

Quando um vínculo relevante para compreender aquela opinião não é informado ao leitor, aquilo que parece ser uma manifestação puramente técnica pode ser recebido sem o contexto necessário.

Ter interesse não invalida um argumento. Esconder do leitor um interesse relevante empobrece sua capacidade de avaliá-lo.

E existe uma segunda armadilha.

Às vezes a matéria consulta cinco especialistas. Parece plural, mas os cinco pertencem à mesma escola de pensamento. Formalmente, há cinco vozes. Entretanto, há uma só opinião repetida cinco vezes. A pluralidade de nomes não garante pluralidade de perspectivas.

Isso vale para economia, direito, meio ambiente, segurança pública, relações internacionais, saúde ou praticamente qualquer assunto sujeito a divergência intelectual séria.

Quando uma reportagem disser que existe “consenso”, vale perguntar: “Consenso entre quem?”. E talvez ainda mais importante: “Quem poderia razoavelmente discordar e não foi ouvido?”. O viés nem sempre está na fonte escolhida. Às vezes está na fonte que nunca recebeu a ligação.

O mesmo cuidado vale para quem escreve.

Durante décadas, o leitor conhecia o jornal muito mais do que os jornalistas.

Hoje, em poucos minutos, é possível pesquisar a trajetória pública de praticamente qualquer profissional com exposição relevante.

Vale a pena, mas não para instaurar um tribunal de opiniões antigas nem para concluir que alguém está errado porque vota neste ou naquele candidato. Isso deve ser feito para obter contexto.

Pesquise o nome do jornalista. Leia trabalhos anteriores. Veja que temas costuma cobrir. Observe a trajetória profissional. Procure relações institucionais públicas.

O resultado pode ser extremamente positivo. Talvez você descubra alguém que estuda aquele assunto há vinte anos e possui enorme domínio técnico. Ou poderá perceber que determinados temas são abordados repetidamente sob um mesmo enquadramento.

Nos dois casos, você aprendeu alguma coisa. Conhecer o mensageiro não prova nem desmente a mensagem. Apenas ajuda a lê-la com menos ingenuidade.

Há, porém, uma ferramenta ainda mais poderosa e hoje incrivelmente acessível: a fonte primária. “Segundo estudo…”. Qual estudo? “Pesquisa demonstra…”. Qual pesquisa? “Dados oficiais mostram…”. Quais dados? “O tribunal decidiu…”. Onde está a decisão? “O político afirmou…”. Existe vídeo completo? “O relatório concluiu…”. Onde está o relatório?

Vivemos a época da abundância de informações. Nunca foi tão fácil chegar às fontes originais e, ao mesmo tempo, nunca foi tão comum assistir a pessoas discutindo ferozmente documentos que jamais abriram.

Estudos acadêmicos estão online. Acórdãos podem ser consultados. Bancos de dados públicos estão disponíveis. Projetos de lei podem ser lidos. Discursos inteiros estão gravados. Relatórios podem ser baixados.

O jornalismo é uma mediação.

Quando o assunto puder influenciar seu voto, seu patrimônio, sua profissão ou uma convicção importante, tente atravessá-la. Leia o documento. Talvez você descubra que a reportagem estava perfeita. Isso também é informação valiosa.

E então chegamos a uma pergunta que deveria acompanhar todo conteúdo oferecido gratuitamente: Quem está pagando? Informação custa caro. Há salários, tecnologia, estúdios, servidores, viagens, fotógrafos, correspondentes, advogados, sistemas de segurança, escritórios e uma estrutura empresarial inteira por trás daquilo que aparece gratuitamente na tela.

A conta existe. Alguém a paga. Pode ser o assinante. Pode ser o anunciante. Pode ser um patrocinador. Pode ser uma fundação. Pode ser publicidade governamental. Pode ser a realização de eventos. Pode ser outro negócio pertencente ao mesmo conglomerado. Pode ser uma combinação de tudo isso.

Saber quem financia um veículo não demonstra que suas reportagens sejam necessariamente compradas ou manipuladas. No entanto, supor que o modelo de financiamento seja irrelevante também exige uma dose considerável de inocência.

Organizações, empresas, mercado, governos e fundações possuem interesses. O público-alvo do veículo de mídia e o seu leitor possuem suas preferências.

E todos esses elementos convivem, em maior ou menor grau, dentro do ecossistema informacional.

Outro ponto digno de atenção diz respeito ao conteúdo da informação. Em regra, para a maioria das pessoas, o melhor conteúdo é aquele confirma tudo aquilo em que essa pessoa já acreditava.

E aqui aparece uma regra desconfortável: o leitor crítico precisa desconfiar não apenas do jornal. Precisa desconfiar de si próprio. Colocar permanentemente em xeque seu sistema de crenças.

Se todas as notícias que chegam até você comprovam que seu grupo político está certo, que seus adversários são intelectualmente inferiores, que seus economistas favoritos possuem todas as respostas e que cada acontecimento confirma sua visão anterior do mundo, há duas hipóteses. A primeira é que você atingiu uma compreensão quase perfeita da realidade. A segunda talvez mereça um pouco mais de atenção.

O viés de confirmação não é uma falha moral. É uma característica humana. Por isso, talvez a notícia que mais mereça verificação não seja aquela que parece absurda. Pode ser justamente aquela que produz em você um prazer imediato: “Eu sabia”.

Existe um exercício simples para escapar disso. Compare versões. Escolha uma notícia importante e abra três ou quatro veículos. Observe o que todos mencionam. Veja o que aparece apenas em alguns. Compare o primeiro parágrafo. Veja que informação foi colocada no final. Observe quem recebeu espaço para falar e quem foi apenas descrito por terceiros. Compare os números. Olhe as fotografias. Se possível, leia também um veículo estrangeiro. Depois vá à fonte original. Algo interessante costuma acontecer.

Pouco a pouco, o acontecimento começa a se separar das narrativas construídas em torno dele. Talvez essa seja uma das habilidades centrais de sobrevivência informacional no século XXI: conseguir enxergar o fato por trás das versões concorrentes sobre o fato.

E isso nos leva à questão mais desconfortável. O veículo de mídia tradicional é porta-voz de quem?

O mundo real costuma ser muito sofisticado. Um porta-voz não precisa receber instruções. Não precisa haver reunião secreta. Não precisa existir pagamento clandestino.

Pessoas pertencentes aos mesmos círculos sociais tendem a compartilhar determinadas premissas. Profissionais formados nas mesmas instituições frequentemente desenvolvem referenciais parecidos.

Redações criam culturas. O Mercado e as Universidades possuem consensos, assim como os partidos políticos, movimentos sociais e segmentos empresariais.

E o que um grupo considera perfeitamente normal pode parecer profundamente ideológico para quem observa de fora.

Não é necessário telefonar para um jornalista para determinar uma posição a ser adotada. Basta que certas premissas tenham se tornado tão naturais naquele ambiente que deixem de ser percebidas como premissas.

É nesse ponto que surge talvez a forma mais eficiente de porta-voz: aquele que não sabe que é um.

E há, ainda, uma última armadilha. Depois de perceber tudo isso, o leitor pode concluir que nada é confiável.

Isso seria um erro. Trocar confiança cega por desconfiança cega não representa evolução intelectual. É apenas substituir uma ingenuidade por outra.

Nem toda reportagem é propaganda. Nem todo jornalista age de má-fé. Nem todo pesquisador foi comprado. Nem todo especialista possui um interesse oculto. Nem toda coincidência de opinião revela coordenação.

O leitor crítico não deve acreditar em tudo nem tampouco rejeitar tudo. As informações devem ser verificadas, sob pena de terceirização do seu próprio julgamento.

Antes de aceitar uma matéria importante como descrição suficiente da realidade, algumas perguntas deveriam se tornar automáticas: “Que tipo de texto estou lendo?”, “Quem escreveu?”, “Quem publicou?”, “Quem financia?”, “Qual é a fonte original?”, “É possível consultá-la?”, “Quem são os especialistas citados?”, “Quais vínculos possuem?”, “Os números têm contexto?”, “O título corresponde ao conteúdo?”, “O texto separa fato de interpretação?” e “Outros veículos descrevem o mesmo acontecimento de maneira diferente?”

E há uma pergunta final, talvez a mais importante de todas: “Por que foi tão fácil para mim acreditar nisso?”.

A imprensa ainda é capaz de fazer coisas que o cidadão isolado dificilmente conseguiria fazer. Pode revelar escândalos, fiscalizar governos, descobrir documentos, entrevistar testemunhas, acompanhar guerras, investigar pessoas e explicar assuntos extraordinariamente complexos.

O problema começa quando essa utilidade é confundida com autoridade para pensar em nosso lugar.

O leitor do passado enfrentava a escassez de informação. O leitor contemporâneo enfrenta algo talvez mais difícil: excesso de informação, excesso de interpretação e escassez de tempo para distinguir uma coisa da outra.

Seu desafio já não é simplesmente descobrir se uma frase é verdadeira. É perguntar: “Eu chegaria à mesma conclusão se os mesmos fatos tivessem sido apresentados em outra ordem, por outras pessoas, com outras palavras?”

Não confie porque está publicado. Também não desconfie porque está publicado. Leia. Compare. Investigue. Abra o documento. Pesquise o autor. Pesquise o especialista. Confira os números. Leia quem discorda. Descubra quem paga a conta.

E preserve uma coisa que nenhum jornal, partido, governo, empresa, influenciador, especialista ou algoritmo deveria receber de você gratuitamente: O direito de pensar em seu lugar.

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